Incolor.

Você não pode aplicar efemeridades quando se trata de algo que realmente implique em sentir. Não é que você vá sentir aquilo, invariavelmente, em seu dia a dia. Você apenas vai saber que está ali, por mais que isso seja o produto da ausência mais irremediavelmente bruta com que teve de lidar.

Você estará sentindo a lembrança, terás os assobios intermitentes de fantasmas que lhe assombram, apenas quando o encontraram a sua espera. As pessoas acham que a reciprocidade deve ser válida, justa. Que é assim que tem de ser. Mas é apenas porque elas sabem sempre ter tentado algo que nunca poderia ser reciproco. Uma mão dupla.

Elas querem receber, e começam a dar a si mesmas. Elas tiram tudo de si, e a medida que acham que existe alguém para preenche-las, apenas há a percepção que foram incondicionalmente esvaziadas. A vulnerabilidade não é uma arte a ser pintada, mas é demonstrada.

Enquanto pensa estar moldando uma figura, é apenas ela que se aplica em ti. Delineando as mais inexatas curvas, ocupando o tempo que você pensa ser escasso. Apenas uma ocupação que não daria frutos. Apenas uma perda. Você perde.

E então, não sabe o que tirou daquilo. Ainda sim, há aquele peso. Uma carga extra, sem previsões de ser removida. Conclusão essa que não é dada por certezas, apenas impossibilidades. Você não consegue ter um controle sobre aquilo que tampouco existe. Não é material.

Ainda assim, consegue ser mais sólido do que todas as outras coisas. Consegue manifestar-se com uma veracidade que chega a ser vertiginosa, e lhe invade. Você fora invadido. Sobre todo o espaço que acreditara estar livre, apenas seria a vastidão do vazio. Esperando os vestígios retornarem.

Não há um inquilino. Ele se fora, você continua a invocá-lo. Como se ele realmente o ouvisse. Mesmo quando não o fizera naquilo que conseguem acreditar ser uma vida. A vida ainda seria vida quando você acreditar estar morto e, continuar vivendo?

Seriam apenas obrigações. Qual foi a obrigação para contigo quando, impiedosamente, fora deixado? Deixando de acreditar e então, como se realmente o término fosse possível, soprou os fios remanescentes que insistiam em prender sua vida. Apenas para que ela pudesse se ligar a de alguém, outrora.

Nada é imortal. Não há recomeços. Estás convicto de que nada será como fora antes. Porém, apenas afirma a convicção de que não valhe a tentativa. Que não há coisa alguma, nada. Não importa quão crente fora em ver amores, promessas e no quanto acreditou naquilo. Não importa que esteja em maioria.

A verdade não é vista por muitos, e a minoria pode ser feita através da unanimidade. E por mais que tenham-lhe dito consecutivamente o quanto deveria afastar-se, você simplesmente ignorou a si mesmo quando disse que não precisava, pois não havia nada o que ser feito ali. Hesitações não são o bastante, uma vez que vãs.

Não há como interferir no que sempre soube que aconteceria. Apenas esteve intoxidado em expectativas, voluntariamente únicas. E por mais intoxicado que estivera, você não foi capaz de ter uma overdose. Cabe a ti a abstinência e, ao outro, o sepulcro.

Não se trata de predileções, você apenas pôde escolher quando começara. Por mais curto que tenha sido o deslocar no ponteiro dos segundos, não há nada que o faça alterar seu sentido. Água, seja numa piscina ou na gota que teima rolar sua face, ambos seriam líquidos. Uma vez que não é sólido, seria como o ar que lhe falta, e dissiparia.

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