Passador.

(passar + -dor)
1. Que, aquele ou aquilo que passa ou faz passar.
2. Que ou quem vende droga em pequenas doses.

Quando você disse que eu me machucaria, eu sabia que você estaria errada. Pois eu sabia que seria impossível eu me machucar mais. Eu sabia que estava prestes a arrebentar e estourar. Ferir qualquer coisa que estivesse ao redor.

Mas quando eu decidi colocar isso fundo demais, a única coisa que eu consegui foi prender todas as consequências dentro do sepulcro que meu corpo se tornara. Eu senti o som reverberar pelo meu organismo, ecoar por minhas extremidades e pude sentir a lise de cada célula.

Eu pude romper as ligações, e eu o fiz antes que alguma outra pessoa o fizesse. Eu fiz o que você teria feito, eu me quebrei por inteira. Eu me machuco sozinha, sem motivos, sem horas e sem datas. Eu simplesmente o faço. E não há um controle sobre isso. Mas fora você mesmo que tirou todo o controle que eu pensei ter um dia. Pensei sem acreditar.

De verdade, não há um culpado. Não precisa indagar por alguma desculpa. Você não precisa começar a dizer o quanto é certa mesmo se estiver errada. Eu não vou mudar quem você é. Mas não se engane por achar que um dia mudaria quem eu era.

Não houve nada. Não é como ter algo concreto e alguém demolir suas estruturas, amontoar escombros e afins. É só como carregar uma nuvem com eletrecidade e moléculas de H2O, até que a tempestade comece com todos os raios. Você não saiu de seu abrigo para perceber, mas a verdade é que não passaram de trovões e relâmpagos.

Foram apenas barulhos e algumas luzes. Não houve uma só descarga elétrica que me alcançou. Meus ossos ainda tremem e eu sinto uma dor impossível. Mas quando eu disse que sentia algo, era apenas o que eu sempre senti. E há muito que eu deixara de sentir o melhor das coisas.

Eu sobrevivo do pior, pois é o que me alimenta. É o que tenho. Eu tenho o que é de pior a minha disposição. Não é como se eu tivesse acreditado que um dia você estaria entre meus pertences. As coisas ainda são previsíveis.

Eu não preciso aparentar estupidez, burrice ou lentidão. Eu não preciso lembrar você que eu sempre soube de algo, mesmo que o “Eu nunca esperei nada de você” esteja em repetição automática. Nós não nos desapontamos. Nós não começamos. Nós não voltamos. Nós não estamos. Nós não terminamos. Nós não somos nós.

Nunca houve o plural pra mim, apenas a minha confusão singular. E definitivamente isso nunca foi diferente com você, você apenas não se confude. Então está bem. Uma confusão que eu sou a única capaz de formar e formei.

Não há ilusões. Você nunca pensou sentir algo. Enquanto eu me enchia de podridão, para me abastecer. Eu não sei quando foi que eu me tornei o seu depósito. Talvez nunca tenha acontecido. Porque eu nunca fui isso ou qualquer outra coisa.

Eu continuo sendo o nada. Eu ainda sou a personificação do vazio, daquilo que é vago. Não é como se eu esperasse que você fosse entender em algum momento, eu não passei de algo desconhecido. Algo que talvez estivesse claro demais para que você entendesse.

A diferença é que eu não tenho de lidar com um ego. A diferença é que eu tenho de lidar com as considerações, possibilidades, vozes, intuições e todas essas merdas que você não chegou a conhecer. Sério, eu também não me conheci.

Eu apenas comprei o produto que pensei ter me oferecido. Mas a verdade é que isso nunca foi uma mercadoria. Eu talvez só tenha sido a droga que você tenha ofertado, em doses. Eu me consumi por inteira. Mas o meu masoquismo doentio nunca esteve em questão.

Como se eu fosse um líquido, eu estive dentro do copo que você entornava. E num intervalo curto demais para ser estimado, cuspiu cada gota fora. Uma hora o copo virou sobre a mesa, derramando todo seu conteúdo. A sujeira foi apenas aquela que olho nenhum poderia ver.

O copo continua intacto, com nenhuma sujeira que outro líquido inodoro e mais puro não limpe sem esforços. Porém, o líquido se tornara invisível. Como se nada houvesse acontecido, nunca. – Nenhuma queda. Nenhum acidente. Nenhuma ingestão. Como se eu nunca tivesse existido.

O líquido nunca volta para o copo. O líquido nunca perde o DNA que estava na saliva. O líquido nunca muda a rejeição que lhe fora imposta. O líquido apenas evapora. Porém eu continuo fria. Não é como se fosse condensar… Eu estou congelando. Mas isso é tudo. De alguma forma. Tudo como sempre estivera.

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