Contrição

Arrependimento sempre será uma constante, não a incógnita. Você os tem como um acompanhamento seja em hipóteses ou como um fato. No momento, eu os tenho como se disputassem um lugar em meu sangue, e a quantidade não suportasse dividir o mesmo espaço que a hemoglobina. Eles estão em minhas veias, e é como se eu estivesse mais envenenada a cada vez que o coração permite sua circulação.

Eu disse o que não deveria, para as pessoas que não deveriam ouvir. Eu não menti, para aqueles que mereciam a verdade, mas que desejariam mentiras caso soubessem de antemão. Contei sobre acontecimentos concretos que não são repulsivos apenas a mim, mas a qualquer um que venha a conhecê-los. Falei sobre o que sentia, ou melhor dizendo, a minha incapacidade de sentir.

Dei o benefício da dúvida a cada um (como se eu já não soubesse da resposta, mas esperando estar enganada) sobre o que sentiam, se alguém ali realmente sentia. Eles ainda sentiam. Podiam não estar inteiros, ou não saberem a definição, mas sentiam o suficiente para eu saber o quanto estivera errada em subjugá-los ou me atrever ao ponto de imaginar que existiria alguém como eu.

Eles não são iguais. Eu não achei um só grupo do qual faça parte. Mas ainda assim, ousei falar sobre mim. O assunto proibido. Aquele que mesmo se falado durante horas, ainda continuaria como estivera no início: confuso, incerto e um tanto desconhecido. O mistério que todos acreditam já ter decorado.

Arrependo-me por ter revelado algo, e não ter explicado. Por tê-los feito considerarem algo que me envergonha só com a lembrança. Ninguém deve saber como me sinto (como eu não sinto, a maior parte do tempo e quando o faço, não sei decifrar sua veracidade), ELES não deveriam NUNCA ter uma centelha sequer do estado que meu cérebro está.

Afinal, fora por isso que eu passei em silêncio absoluto pelas sete consultas ao psicólogo no último ano, em suma. Quem penetrasse em alguns dos pontos obscuros que enchem o meu ser, estaria em apuros. Eu os coloquei em apuros. Eu me colocara em apuros vertiginosamente maiores. E não há arrependimento maior que consiga exemplificar as dimensões que o meu atingira.

Por mais que eu não minta, eu oculto as verdades e seleciono apenas aquelas que seriam menos nocivas. Eu me abrir e falhar na seleção dessas verdades, como fizera, é o mesmo que passar o bisturi em minhas três camadas de pele e esperar pela hemorragia inevitável. Agora eu estou sangrando sem previsões de estancar.

Eles não são como você, ninguém é. E é apenas você que consegue o eixo exato onde está inscrito ‘ordo ab chaos’, consegue me surpreender com a resposta sem me deixar dolorosamente arrependida mesmo que se trate de um engano meu.

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