Desvario.

Inúmeras vezes me encontro imaginando como seria se eu apenas dissesse o que há muito já deveria ter sido dito. Sonho com o dia em que enfim vou escrever aquilo que penso, encontrando nem que seja por algum acaso, a explicação que deliberadamente tenho passado dias incontáveis procurando.

Acabo por escrever pelas linhas mais tortas numa caligrafia tosca tudo aquilo que nem por um segundo desejei de fato escrever para depois ser lido. Não é como se existisse alguém que vá ler cada coisa que venho a dizer, minha vida nem de longe é interessante a ponto de despertar a curiosidade alheia, eu não sou interessante.

Essa constatação não é tardia, pois nunca fora desconhecida. Na verdade, afirmo vezes demais para que alguém ainda não a conheça. Contudo, eu continuo encontrando uma dificuldade inexplicável em revelações. Talvez, eu nunca tenha passado do ponto onde deveria ter definido o assunto.

Por vezes passei pela mesma situação agonizante de perder as palavras pelo caminho, seja de vibrar uma corda vocal ou de atingir as letras do teclado. Impedindo, assim, qualquer forma delas se concretizarem ou de existir uma satisfação para mim, pelo menos alguma que expresse alívio. Pois acontece essencialmente quando se tem muito a dizer e então passa a ser sufocante.

Eu passo a maioria de meus dias com a sensação de um nó em meu pescoço, e algo ou algum infeliz hesitando acabar com o milésimo de segundo que me separa da eternidade mórbida. A sensação de passos sendo observados, de decisões manipuladas antes de tomarem algum fim, gestos e falas sendo analisadas e afins, não diminui a verdade incontestável de que eu continuo mais sozinha ao passo que a paranóia é inegável e onipresente.

Eu não sei se é preocupante para alguém como é para mim, o fato de eu ter me perdido de mim mesma, de eu não poder pensar, agir ou qualquer outra coisa sem que mude de idéia antes mesmo de saber exatamente o que estava considerando. É como existir milhares de mim mesmo dentro do meu corpo, mas ao mesmo tempo eu continuo me sentindo vazia, oca e desabitada.

Incapaz de me habituar com algo que constantemente me é imposto, distraída demais em passar a impressão de estar como os outros acreditam que eu devo estar para saber realmente como estaria. Perdi horas no processo de entreter alguém, convencendo-o de estar ocupada, que essa se tornou a minha ocupação, enquanto não mudava o fato de eu estar paralisada, sem ações verdadeiras.

Não é debalde que a sensação de superficialidade, o distanciamento e a incapacidade de sentir algo e ter o discernimento necessário para distinguir a realidade de suposições, hipóteses ou sonhos, insiste em me perseguir. Estão lá invariavelmente, gritando por todos os meus poros que eu não posso ser normal. Que eu sou mesmo a alienígena que não me deixam esquecer.

Talvez eu simplesmente devesse deixar o torpor me dominar, e fazer com que os meses se acumulem, sem que eu esteja aqui. Soa perturbadoramente tentador, pois é exatamente o que eu tenho ansiado. Pergunto-me se eu já não estou fazendo isso e quando paro para analisar o cenário de cinema catástrofe em que me meti, não seria apenas algum lapso de consciência, gerado pelo atraso de alguma percepção que eu tenha demorado a assimilar.

Uma hora ou outra, eu vou acabar absorvendo uma mágoa, uma tristeza, aborrecimento ou frustração – e tudo o que há de ruim, uma vez que decidi ver apenas o pior lado das coisas, pois é inegavelmente o mais seguro por ser o único e real lado delas, fugindo de qualquer outro tipo ilusão.

É claro que há vezes em que eu acabo apenas me perdendo em meio aos fingimentos, eu desempenho excepcionalmente bem os papeis que as pessoas parecem imprimir e me permitir o ensaio de risos, concordâncias e completa falta de senso crítico.

Às vezes as pessoas querem apenas que você seja agradável para com elas e as encha de prazer, e isso está sim relacionado com dizer que elas estão certas e que você concorda. Mal sabendo elas que a sua aprovação, apenas por partir de você, só estaria invalidando todo o resto.

No final, ninguém conhece ninguém. Pois, segundo os metafísicos e companheiros espirituais e recentemente pelos cientistas, todos estamos conectados e somos energia, pois todo o resto também é isso. Por favor, eu não vou acreditar em nada assim. Mesmo sabendo que não vá fazer a mínima diferença, é como as coisas continuam indo. Você não sabe que tipo de controle tem quando sequer consegue definir o que acredita que pode controlar.

No final, a única limitação que alguém encontra é a dele mesmo. E eu nem sei se deveria mesmo dizer algo, pois eu não sei quem estaria dizendo. Eu não vou saber se estou dizendo algo por pensar isso, ou se estou apenas pensando algo que alguém quis que eu pensasse. Digo mais, eu não sei se vou estar mesmo pensando ou dizendo quando ainda não sei se estaria fazendo qualquer um dos dois, pois não consigo saber se estou aqui de fato. E eu não sei se alguém soube um dia ou se sabe.

Eu ainda sinto como se estivesse na sala de espera, tenha pegado no sono e esteja tendo uma prévia de como as coisas poderiam ser. Mas essa prévia nunca seria exata, pois eu não posso estar certa sobre o desconhecido. E talvez seja por isso que as coisas são tão impossivelmente erradas.

Eu não posso imaginar o que não existe, mesmo que o conceito de imaginar em si, seja exatamente a arte de pensar e considerar sobre algo inexistente. A idéia deveria proporcionar algum tipo de consciência, um preparo ou experimento. Mas talvez não se passe de um devaneio longo e ininterrupto, eu devo ter pegado no sono dentro da sala de espera e algum outro infeliz tem o receio de me acordar e fazer com que eu viva de fato.

Talvez, apenas uma espécie de ser que tenha prazer em assistir ao desespero e sofrimento alheio. A hierarquia nisso é tão injusta quanto todo o resto, até porque eu não consigo me separar da voz que tenta me alertar que eu mesmo posso ser esse infeliz. Em ambos os casos. Mas eu não hesitaria em puxar a corda amarrada em meu pescoço e tampouco desejaria prolongar esse meu sono difuso, se dormindo está ruim, provavelmente acordado seria pior.

Eu procuraria por outras formas de desgraça – maiores e mais completas, não procuraria? Qual realidade estaria envolvida nisso? E desde quando a realidade passou a ter ramificações? Não deveria levar apenas o rótulo de real? Caso deveria, porque eu não o vejo em lugar nenhum? Parece que eu estou na estaca zero antes mesmo de começar. Eu ainda não sei quem, como ou por quê.

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