Engano.

Eu sou instável. Sempre soube disso, sem dúvidas. Logo, não estou livre de momentos em que preciso admitir que não estou nem perto de me livrar da irritação por uma alergia na pele ou por meu cabelo simplesmente não ser como eu queria que fosse, e que embora eu consiga desejar alguém como um humano desejaria, eu ainda não me torno mais próxima de ser como eles.

E isso não chega nem a durar até a lembrança do quanto é insuportável ouvir sobre cutículas, baladas ou garotos e qualquer um desses assuntos. Eu não estou livre da futilidade ou da burrice, da irracionalidade inconveniente ou dos impulsos mais terríveis ainda. Simplesmente, eu tenho uma tendência a administrá-los bem demais para que sejam significativos e mudem algo permanente.

Algo que implique em me reconhecer como mais humana e menos deslocada. Mais normal. É penoso ter que imaginar como meus pais se sentem, vendo eu me trancar por dias seguidos no mesmo quarto, sem nenhuma companhia. Por mais que minhas notas não sejam preocupantes e a escola não apresente uma só queixa sobre mim, isso não é o tranqüilizante necessário para eles.

Eu ainda não tenho uma rede inteira de amigos ao meu dispor, e sinceramente não estou inclinada em planejar uma. E eu não sou o tipo de garota que se arruma todas as manhãs, atenta a olhares e qualquer chance de exposição. Não é uma crítica àquelas que são assim, só é um fato. Eu ainda ando encurvada e pelos cantos. E isso também está longe de deixar alguém satisfeito.

Felizmente, eles parecem imunes a isso. Pelo menos a demonstrar essa insatisfação a ponto de se testarem o suficiente para tentar mudar algo. Há muito eu fui declarada como o caso perdido. A vergonha da família. Está bem assim. Atenção é tudo o que eu não preciso, eu não estou atrás de algo para invocá-la.

Mas por mais que alguém aparente estar conformado, ainda não é o suficiente para mim. Pois eles realmente não sabem sobre o que se conformar. Por mais quieta que eu esteja e não esboce expressões ou comportamentos descomunais, eles apenas concluem aquilo de mais inconcebível e acabam atirando em mim sem aviso nenhum. Eles conseguem interpretar da forma mais absurda, por ser a mais errada.

Resume-se em me encarar como uma adolescente rebelde sem causa, que se acha intocável por sua superioridade indefectível, na sua sabedoria inabalável que não precisa de ninguém. Não precisa de nenhuma razão além da sua, como se soubesse de tudo, ou muito mais do que eles saberiam juntos.

Lamentável, sério. Como eu queria que ELES fossem assim, se é que isso os ajudaria a ver o quanto estão errados. O quanto todos estão errados sobre mim. Sim, eu posso afirmar isso. Não há formas de alguém me conhecer melhor que eu, porque nem eu mesma me conheço. E quem me conhece, sabe que não me conhece. Por que alguém não tenta lidar com isso?

Pelo menos não são eles os retardados, ou são? Esse seria um dos momentos em que eu deveria ser normal o suficiente para me importar. Mas há muito que eu deixara de ligar com o que os outros estariam pensando (no momento em que a humanidade se tornou tediosamente previsível, com cada ato seguinte no olhar e cada pensamento tolo que até recém nascidos suspeitariam).

Ou, talvez, porque eu tenha uma intuição pouco falha que me leva a acreditar no que eles pensariam de fato, caso o fizessem. E na maioria das vezes é tão miserável que se mistura facilmente com todo o resto. E o resto é inegavelmente desinteressante, só não é incondicional e sem exceções. Sem uma exceção.

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