Lúgubre.

Os dias passam de forma cada vez mais desconexa, meus olhos ou minha mente estão irremediavelmente incapazes de focalizar, até aquilo que possa estar bem ali, próximo. Os sentidos nunca definidos estão mais perdidos e a desmotivação em retomá-los não é insincera. As horas passam como não deveriam passar, mesmo que cada segundo não seja atenuante para a dor que por um período indeterminado tem me perseguido.

Eu não consigo lembrar o dia exato ou o ano, fico sempre entre dois dias do mesmo mês. Por mais que eu soubesse, isso não alteraria o fato ocorrido. Muda apenas a palavra antecedente da outra. Mas não muda o sentido, eu ainda estou de luto. Eu tenho estado nisso há anos, há meses, há semanas…

Talvez tenha em algum momento mudado a origem. Não mudado no sentido de uma substituição. Tem-se observado um acúmulo. E o mais recente (de verdade, há mais de muitos meses) tem sido o luto por mim mesmo. A minha morte estivera em questão. Eu sinto como se estivesse morta.

A minha cor está se esvaindo, o meu corpo se definha, os meus cabelos uma vez desgrenhados agora não passam de pelos imensos e insanos que parecem cair com o vento, as minhas unhas cada vez mais sujas e maiores, a minha pele uma vez livre de manchas, agora é apenas um depósito de resíduos que vão servir de alimento para os fungos.

Os meus órgãos, todos paralisados, tirando aqueles ausentes – como o meu coração que fora brutalmente estilhaçado e depois arrancado enquanto ainda me sobrava os últimos suspiros, até que meu pulmão fora perfurado, impedindo qualquer oxigênio e eliminando toda vitalidade que cismava em agarrar-se por algum motivo desconhecido.

Meu corpo parece guardar apenas aquela memória falada que fica nos tecidos, ou músculos, algo assim. Depois que o óbito é dado, o cérebro ainda funciona por, aproximadamente, 7 minutos. E tem sido esses mesmos 7 minutos que se estenderam até agora. Com uma flexibilidade sobrenatural, mas ainda incapaz de fazer brotar alguma chama ou luz que me mantenha menos morta.

O cérebro nunca obteve o funcionamento ideal, a minha mente sempre fora doentia, não é de se surpreender que eu não tenha conseguido grandes feitos e que ainda me prenda numa vida inteira conjugada no preterido imperfeito do subjuntivo. Ainda assim, eu espero pelo oitavo minuto.

Nunca fui uma portadora do otimismo ou daquilo que se conhece por expectativas de melhora, eu aguardo apenas por um fim concreto. Por um ponto final que não seja seguido por qualquer outro acréscimo. Eu não quero ter de lidar com outras dúzias de reticências. Nem mais um minuto.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s