SPEAK

Eu me sinto violada. Não é exatamente o mesmo que estar ofendida. Magoada. Chocada. Talvez seja uma combinação desconcertante de todos esses elementos e mais alguns afins. Por mais que essa cena tenha estado em meus sonhos (que agora percebo terem se tratado apenas de avisos), a freqüência com que ela perambula por meu cérebro mostrando fitas em diferentes ângulos, pedindo por uma explicação, é perturbadora.

Eu deveria ser grata por ter essa lembrança, mesmo que não seja de todo boa. Mas o único lugar que ela parece me levar é para a insanidade derradeira. Várias outras gurias (só para não ceder a palavras como qualquer uma ou todas) estariam excitadas, em júbilo. Eu apenas me sinto… Vazia.

Não é novidade, de fato. Mas a impressão de ter adquirido uma espécie de fundo dentro de mim, e isso estar se expandindo, me sugando e me levando para baixo, apenas colocando tudo ali, é desesperadora. E ninguém sabe o que tem ali. Ninguém sabe a verdade sobre o buraco negro. E sentir como se estivesse um bem ali, onde deveria estar o órgão que chamam de coração…

Eu fico apenas com a presença, a presença de algo que se foi. Eu permaneço ausente. Por mais que seus lábios fossem ávidos por conhecer cada superfície de meu corpo, e a cada segundo você pedisse por mais… Eu só queria que tudo parasse de uma vez. Você ainda dizia que sentira minha falta e pedia para que eu prometesse não sumir e não esquecer nada. Pedia para que eu me importasse. Com você. Com nós.

Eu não sei dizer se é ou não recíproco. Eu… Eu não faço promessas, nenhuma desse tipo, pelo menos. Em todas as incontáveis vezes em que pude imaginar-me ouvindo essas mesmas palavras, eu pude me deliciar com os poucos minutos em que a ilusão me dominava, eu pude degustar a satisfação. Mas tudo o que pude concluir quando estava de fato ouvindo, é que eu não queria ouvir.

Eu não queria que aquelas palavras saíssem daqueles lábios. Porque por mais que eu estivesse ali para ele, eu estava ausente. Ele estava esperando a ardência de uma adolescente, ele queria que eu o incendiasse e o matasse com amor. Ele pedia por amor, paixão e calor. E por mais fria que eu seja, eu não pedia pelo mesmo. Não dele. Mas eu não pude perceber isso antes.

Antes de o meu corpo estar coberto com sua saliva. E que o gosto dele estivesse descendo meu esôfago. Ele mudara. Ele havia se transformado no que eu estive anos desejando que ele fosse. Ele agora dizia o que um dia eu chorei por não ouvir. E eu agora chorava por ele estar dizendo. Eu mudara.

Os anos levaram algumas coisas minhas: Vitalidade e humanidade. E ele não foi capaz de trazer isso de volta. Ninguém fora capaz, exceto ela. E por mais que ele tenha sido aquele que realmente levou o que eu pude contar como pureza, virtude ou o que for… Ele fez com que o nojo absurdo que já sentia de mim mesma, aumentasse exponencialmente.

E ele fazer a principal coisa que pedi para evitar ou tentar nem pensar, só fazia com que nos afastássemos, enquanto eu sentia o corpo dele delinear o meu, aumentando a pressão. Ninguém via a força com que ele me envolvia, e como os olhos dele me fitavam com o desejo mais pecaminoso estampado em sua íris.

O azul esverdeado que antes me emocionava apenas de ver e me encontrar em algum ponto ali, como se eu mergulhasse em uma piscina, naquele momento apenas matavam os meus e faziam-me evitá-los. Ele não pôde ver os meus olhos gritando mais alto que o barulho de uma festa com dezenas de pessoas bem ao lado. I was raped. Twice.

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