Nada nem Ninguém.

Eu tenho medo de, quando o último traço sair, de quando o último tentáculo desaparecer e de quando nossas iniciais sumirem e não tiver mais uma marca aparente em mim, como vou continuar sentindo todas as marcas que você deixara. Eu não posso mais falar que estou intoxicada, porque não há mais sangue em minhas veias.

Toda vida que outrora me proporcionara, se tornou toda a vida que de mim levara. E agora, não é como se fosse existir outra vida. Alguma vida. Uma vida. Elas eram nossas. Você continua com a sua, eu continuo sem a minha. Não é como se eu conseguisse. Respirar sem pulmões, sem ar. Respirar. Não é como se isso fosse viver. É só deixar o corpo livre e vazio, sem vontades, sem comandos, sem controles.

Porque mesmo que seja mais fácil acreditar que nunca existiu do que ter de lidar com o fim daquilo que existira… Eu só preciso saber que você existe, para que eu continue aqui, ainda. E por mais que eu reprima a vontade de fazer que me aceite, eu ainda não consigo me aproximar sabendo que não há nada ali que queira isso. Nada ali que eu possa chamar de meu, mesmo que nunca tenha sido, nós fizemos/eu fiz como se fosse. E agora, é como se tivesse mesmo sido um sonho. Do qual me acordara para me situar no pesadelo que tudo se encontra, sem outras interrupções.

O fascínio pelas águas-vivas sempre se consolidara na capacidade que possuem, como conseguem ser incrivelmente belas, divinamente tentadoras em conseguir um só toque, e se a proximidade não for adequada e você realmente encostar, elas acabam com você. Em menos de um minuto. E, ainda assim, você nunca acaba com elas. Elas podem se regenar, elas conseguem ser imortais pelo tempo que quiserem ser.

Se “nós” fossemos como elas, nós duraríamos pelo tempo que quisessemos, e por mais que tivessemos um ciclo, ele seria quebrado só para começar outro, e nós continuariamos ali. Juntas. Nós teriamos toda a beleza, o mistério e despertariamos a curiosidade de um ou outro. Seriamos incríveis, como fomos.

Eu não acho que algum dia vou me acostumar com a ideia de passado. Porque é como se nunca fosse passar. É como se não existisse mais nada a partir do momento que você disse que “nós” não existiamos mais. Eu não vou tentar descrever como as coisas estão sendo, elas só não estão. Estão cada vez piores. Mas quando tudo o que não podia acontecer, aconteceu, não é como se alguma outra coisa fosse superar.

Eu te forneci tudo que era necessário para que você fizesse com que eu deixasse de existir, cada palavra, cada defesa, cada centímetro do meu corpo que poderia ser afetado, cada órgão que se destruiria, cada pensamento que atravessaria minha mente e como ela não funcionaria depois que ele fosse absorvido. Cheguei a te mostrar os retalhos, os curativos, as cicatrizes, apenas para que você os estourasse, expandisse e os deixasse sangrando. E enquanto eu acreditava que você estava melhorando o buraco em mim, você estava apenas abrindo um só seu, e agora é como se eu fosse um queijo suíço. Você fez de cada uma dessas coisas, uma arma.

Enquanto você dizia que eu não acreditava em você, eu apenas não conseguia deixar de acreditar. E então era como se você apenas tivesse dito isso, para que eu não acreditasse. Dizia com tanta força e/ou vontade, como se isso pudesse virar verdade. E eu não acreditasse mais, pra quando isso fosse necessário, não doesse tanto. Mas você não pareceu perceber que, se eu não acreditasse em você, não existiria mais nada crível.

Como em menos de 24 horas, você pode me querer e nas próximas horas, apenas querer a minha distância. Como essa ideia pode carregar consequencias potencialmente devastadoras, e como a ideia “você nunca quis”, acaba liderando o acúmulo das alternativas óbvias, mas esquecidas.

Como algo que poderia parecer tão sublime e único, pode acabar como algo tão banal e, diferente de qualquer coisa que era com você, humano. Como pode começar a parecer escuro e silencioso, desértico, quando tudo era luzes e ruídos. Quando até as palavras, começam a faltar.

Eu tenho medo de o desenho enfraquecido em meu braço, ser o último. E quando ele finalmente sair, ser como se realmente nada nunca tivesse existido. Eu tenho medo de estar certa sobre o que me fiz não acreditar, e errada no que quis acreditar. Eu estou apavorada, mas não é como se eu sentisse medo. Eu tenho medo da ideia, mas é só até ela se trancar e sumir junto com as outras.

E quando não sobrarem outras lembranças, ideias, vestígios e bla, eu não estarei mais aqui. Não que eu esteja agora, mas elas estão. Todas as suas coisas. Você lutou para sair de mim, rompeu minhas hemácias, arranhou minha pele, quebrou os ossos. Fez com que tudo virasse pó. E a culpa é minha. Não poderia ser de outra pessoa, quando não há outra pessoa.

Porque quando eu tiver de ir, não vai ter quem me segurar aqui. Quando eu for fazer, vai ser apenas o que já deveria ter sido feito. E você não vai ser a responsável, ninguém vai, além de mim. Porque você já tem outra pessoa ou tem você mesma. Enquanto você era tudo o que eu tinha e nunca mais vou ter… Nada nem Ninguém.

Fin.

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