Analogia.


“Gradually, then suddenly. That’s how depression hits. You wake up one morning, afraid that you’re gonna live.”

Não há muitas formas de se ilustrar uma alma deixando um corpo. Uma vida deixando de viver enquanto o corpo continua precariamente cumprindo suas funções involuntárias. Seu intelecto debilitado apenas executando questões automáticas. Você pode imaginar-se num parque, quando todos os brinquedos começam a parar, as pessoas já foram, os funcionários já se presentearam com o fim do expediente e as luzes já foram apagadas.

Os brinquedos continuam ali, em toda sua engenhosidade, grandiosos aos olhos de uma criança. Continuam tentadores, até que você percebe estarem no escuro. Sozinhos. Grandes, e assustadores. A tentação está no medo. Sua impetuosidade se fora, e eles continuam ali. Mas não há diversão alguma. Não há nada a ser desfrutado. Eles começam a perder seu vigor, seu propósito, sua diversão, sua formosura e o deleite é convertido em desalento.

Também se faz presente a imagem de um edifício, com todas suas luzes tremeluzentes, até que andar por andar, janela por janela, suas luzes vão se apagando, as pessoas vão saindo. Suas funções são deixadas. Suas tarefas interrompidas. Seus deveres esquecidos. Seu trabalho perdido. Ou, até mesmo, como se cada um desses andares fosse uma ligação para com os sentidos, com a racionalidade, com a sanidade, com o destino.

As luzes se apagam, as ligações são rompidas. O desespero chega. A agonia sufoca. A conformidade é imediata. A paralizia se manifesta como se injetada por mãos hábeis que não deixam transparecer dúvidas sobre sua eficiência. Você vai subindo os andares, como que para escapar da escuridão que devora os outros departamentos. Até que enfim é processada a informação de estar no alto de um prédio, onde não há nada impedindo seu corpo de desfrutar da gravidade.

Você está a um passo do segundo que o separa da eternidade. Ou do que quer que seja. Caso não pule, a escuridão engolfa você. Caso pule, a escuridão também lhe estenderá seus tentáculos. Anunciando o suicídio, sem que nenhuma nota adoce seus ouvidos. Sem que nada preencha seu campo de visão. Sem isso ou aquilo. O nada acontece. É apenas o nada. E nada não pode ser algo. Se for, não pode ser o nada.

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