Psicose.

Eu estou cansada. Cansada de tudo o que foi e até do que será escrito. Assim como todo o resto, as letras adquiriram o mesmo tom, todas num mesmo compasso. Sem ritmo algum, as consoantes com vogais se somam, acumulam-se em linhas, borram o papel e depois o esmagam, agora poluído pelas palavras, com os sentimentos que não mais carregam. O papel deveria ser fino demais para suportar tal peso, e meu corpo já estava pesado demais para que se encarregasse do fardo.

Sentia-me imóvel em meio a todas as mudanças. Mudanças das quais eu não mais sabia. Iam e vinham, a medida que eu me transformava num verdadeiro aeroporto. Eu sabia que tudo estava mudando, mas eu não sabia o que isso significava. Por mais que eu pudesse medir e até saborear aquelas palavras, eu não conseguia, de fato, compreendê-las. A questão não eram mais as palavras. E sim a ausência de quem escrevê-las.

Eu estava amordaçada, acorrentada em meu próprio corpo. Era como se pessoas estivessem o tempo inteiro em meus calcanhares, e me observassem ininterruptamente. Elas pareciam assistir o espetáculo do qual eu mesma me tornara figurante, quando deveria ser a protagonista. Mas não importa sobre quem o holofote se encontra, apenas que – por mais amplo que seja seu alcance – eu não estaria nele.

Eu me perdi. Perdi-me em mim mesma. Sugada por alguma veia que funcionava como um portal para alguma outra direção, já que não havia mais coração ali. Provavelmente, seja este o real motivo, o buraco que se cravara em meu peito vazio, funcionou como o buraco negro já mencionado, e agora eu estava em outra dimensão. Eu podia ver as coisas passarem, assistir a tudo e a todos. Sem estar ali. Sem saber se havia algo ou alguém ali.

Com que diabos me meti, não há quem saiba. Mas eles – quem diabos eles são? – ainda estavam lá. E agora, uma vez que ainda estou aqui – estou? – depois de todos esses anos, eles também haviam evoluído. Adquiriram novos instrumentos de trabalho. Eles tinham o suporte necessário para usufruir de injeções que me aplicavam quando lhes aprouvesse. Eu perdi o meu corpo. Perdi seu controle.

Agora tudo parecia ser a resultante de impulsos, a inconstancia atingira seu limite; cada ato munido de uma efemeridade inigualável. Não havia quem me achasse. Eu não podia ser ouvida e nem vista. Como um fantasma. E tudo se pintava de acordo com o que me pintavam, não se passando de vultos entremeados a projeções de sombras do que me mostravam não ser a realidade.

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