Onde é que se esconde enfraquecida a antiga fortaleza?

Eu era a última aluna a sair da sala. Não havia muitos minutos que o sinal anunciando o término do período escolar tocara. Poucos alunos apressados me ultrapassaram sem dificuldade. Logo vi que ela ainda estava ali, começando a descer as escadas. Lado a lado, hesitei até cuspir as palavras que há meses escondi.

B: – Hm, Cibele, qual sua opinião, o que voce pensa sobre suicídio?
Ela parou, me encarando, eu conseguia sentir que aquilo a surpreendeu, quase uma perturbação. Contudo, sua face apreensiva ainda era uma visão clara de força e controle, determinada.
C: – Uma grande fraqueza ou um grande heroísmo. Se for uma necessidade, morrer ao defender uma causa, um ideal ou pelo mundo, será um heroi. Morrer por vontade, por desistencia, apenas por você nao querer mais viver, é uma grande fraqueza… Isso não. E nao é o seu caso apenas por considerar essa ideia, já demonstra ter muita força em você. A vida sempre vai valer a pena. Se não acha que seja a sua, viva para mudar a de outra pessoa. Viva pelos outros. Seja uma grande politica, uma juíza, você sempre será capaz de fazer a diferença, como já faz. Se sua vida nao tem valor para voce, tem para outros, eu sou um exemplo pois, caso contrário, eu nem estaria aqui tendo essa conversa. Você nao ama seus pais?
B: – Eu já nem sei mais. As vezes é como se eu nem estivesse aqui. Acho que ainda só nao o fiz pela indiferença em continuar ou ir.
C: – Tem namorado?
B: (risos) – Não…!
C: Arrume um, é bom, ai voce pode descontar nele (risos). Mas nao considere isso, acho um grande desperdício. Eu posso chorar por um dia, seus pais a vida inteira, mas o mundo nem vai saber que você existiu. (Silêncio.) Voce é capaz de fazer a diferença, de mudar… Não desperdice isso que você tem, não jogue fora. Comece a ajudar os outros. Viva para o próximo que não há satisfação que valha mais a pena.
B: – Obrigada… Eu só perguntei porque realmente a admiro e respeito, e o que diz é importante… É diferente em mim. Eu queria saber sua ideia sobre isso há muito.
C: – Bem, agora já tem. E não agradeça, mas tire isso de você (começou a passar a mão sobre meu peito vazio, como se tocasse em tudo o que havia de ruim ali, puxando e soltando os dedos para o nada). “Tira, tira, tira!” Se nao pode mais viver por voce, faça o que eu disse e viva. Procure alguém para ajudar. Você é útil para muitas pessoas, para mim.

Nos abraçamos. Eu podia jurar que os olhos dela estavam tão ardidos quanto os meus. Confirmamos o horário do encontro mais tarde, saimos para direções contrárias.

Desci ao banheiro, nervosa. Sentei, tirei a tesoura que ainda estava em meu casaco. Três linhas e alguns segundos até ver o sangue. Uma distração. Outra dor. Mas nenhuma dor física é o bastante. Talvez, nem a morte seja.

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