Incidente.

Não fazia muito tempo desde que saira do banho. Assim que passou pela sala, sua mãe pediu para levar as cadeiras – grandes e pesadas – de volta para os quartos. Ela pegou as duas primeiras, fáceis de retirar do lugar. Sua mãe logo protestou, dizendo que teria de ser as do outro lado, as que estavam presas, exigindo um malabarismo para sairem de lá. Ela disse que não precisava ser assim, então, ninguém as usaria agora e seriam mais úteis onde estavam.

Deixou a sala, ainda ouvindo as reclamações de sua mãe sempre estressada e, agora, mais furiosa. Não passou mais de meio segundo que estava no quarto, seu pai já alterado, gritando e falando grosso – ela jurava que podia ver fumaça saindo de seus poros -, ordenou que ela voltasse lá naquele instante e pegasse as cadeiras. Do momento que ouviu essas primeiras palavras até que se dirigisse de volta ao quarto, não teve um só minuto de silêncio. No entanto, houve outros acontecimentos que a faziam sentir-se de uma maneira indescritível, mas familiar.

Enquanto pegava a primeira cadeira, sentiu tê-la pego de mau jeito, mas o problema foi ouvir o que foi falado por um de seus pais – já não se lembra o quê e nem por quem -, que fez com que ela soltasse a cadeira com mais força do que escolheu, derrubando-a. As fumaças que saiam de seu pai deram lugar a uma explosão. Ela não esperava. Foi, de certa forma, um acidente. Porém, quem é que se importa? Ninguém.

Ele veio para cima dela. Sendo pelo menos uns trinta centímetros mais alto e uns 100kg mais pesado, foi quase um milagre ela não ter se encolhido, provavelmente em choque. Ele a xingava e se xingava ao mesmo tempo. Quando, logo que se aproximou, fechou a mão para acertar-lhe a face, ela já acionou um modo ao qual por um tempo razoável não recorria mais. Ela se retirou dali, deixando seu corpo imóvel enquanto sua mente se suspendia em espera. Isso não o fez hesitar em nada.

Ele falava sozinho, pois ela não disse nem uma palavra. Processava as palavras, sem poder conter os ouvidos de funcionarem, absorvendo somento o dano que lhes causavam, matando seus resquícios moribundos. Ele nem imagina. Ela se lembra de algumas coisas, xingamentos vagos e perdidos, ainda carregados de sentido. Mesmo desconexos, continuam nítidos: Sua ingrata. Filha de um puta. Vaca. Desgraçada. Vadia. Mal agradecida. Acha que eu sou um palhaço? Quem você pensa que é para me desafiar assim? Maldita! Como pode nos tratar feito lixo?! Você é um monstro! Quero ver me pedir algo! Sou um imbecil mesmo, vagabunda! (…)

Ela sabe que tem mais, muito mais. Talvez ela deseje se lembrar exatamente da ordem e de todas as palavras mas, como produto do modo que estava – usando não mais que uma centelha de sua mente, colocando alguma outra pessoa/coisa no comando -, não se lembra.

Sua cabeça está pesada, uma lembrança de seu pai a segurando pelos cabelos, os puxando e chacoalhando, arrastando-a para o sofá e aumentando a diferença de suas alturas. Sua face está ardendo e consegue saber da vermelhidão mesmo sem ter um espelho como prova, os tapas que lhe atingiram – todos no rosto, como fazem com cachorros e/ou prostitutas sendo expulsas de lugares – garantia que estava certa.

As últimas palavras não foram as dela, mas lembrava-se remotamente das palavras que romperam lábios até então selados “Não, não é isso” Ele: “Não faço tudo o que pede, com o maior carinho?” Ela: “Não, não é isso, você só não está certo. A cadeira só caiu” Ele: “EU VI!” Ela, sem saber como controlar seus lábios de se moverem: “Claro, você vê tudo.” Pronto. Outra explosão.

Dessa vez, ele se afastou. Ela também. Só voltou para pegar a segunda e última cadeira, com a cabeça erguida, sem pausas, desejando que nunca mais tivesse de olhar aqueles rostos com suas vozes. Ela sentia raiva. Agora, menos de meia hora depois, sentia a sede com as suas outras dores, já exacerbadas, em ascendência.

Não chorou, nem uma lágrima sequer. O que havia aprendido há anos, desde quando sentia cada vez mais tapas, pontapés e coisas que chamavam de uma “surra”, pois percebeu ser a dor física a menor delas. Logo, quando saia de uma delas, ainda sentindo-se ausente, ela se permitia acreditar ter tido o controle, pois, nao chorava mais por essas dores.

Contudo, ao sair dessa, ela sentiu algo a mais. Quando ouviu o que parecia um “Filha da puta que a pariu! Quero só ver se vier me pedir algo!”, ela jurava solene e silenciosamente nunca mais pedir ou precisar de algo de seu pai. Dele e de ninguém mais.

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