What Happens When The Heart Just Stops?

Ela sabia que precisava escrever. Era o terceiro texto que começara desde que recebeu a notícia. Ela não sabia como dizer, o que dizer, a forma certa de se dizer. Depois de ter mandado algumas frases, as quais provavelmente se arrependeria depois, ela simplesmente respirou. O suspiro foi longo, arrastado. Fechou os olhos, e escreveu.

Ela queria que aquilo que estava dentro dela se esvaisse. Não que a deixasse, pois pelo menos ela sentia algo, afinal. Mas precisava que se desconcentrasse daquele lugar, fazendo parecer partir tudo de uma única pontada. Uma martelada lancinante a cada pulsar de seu sangue. O que nem parecia estar acontecendo, pois ela ainda tremia. Descompasada.

Por enquanto não chorava, mas sabia que assim como as barreiras que inutilmente tentara manter, as lagrimas também se romperiam e ela estaria a deriva. No momento, ela ainda encostava a cabeça em seu joelho e continuava com os olhos apertados, se concentrando apenas na música, querendo que fosse mais alta que o som das teclas e de seu pai orando no quarto ao lado.

Ela abriu os olhos, respondeu alguma coisa na única janela aberta. Logo, tudo estava ali outra vez. Ela percebeu quando sua respiração acelerou, seu corpo ocilou e o buraco em seu peito afundava levando parte de sua consciência. Então fechou os olhos outra vez. Ainda não sabia como começar.

Conhecia um jeito de expulsar sensações que a dominavam, como um refúgio, quando o que sentia era terrivelmente mais intenso e horrível do que alguma mente seria capaz de imaginar. Há meses que voltara a se cortar, mas os últimos cortes foram tantos, tão profundos e até graves que agora, semanas depois, ainda estavam no processo de cicatrização, avermelhados.

Contudo, ela não se cortava mais para tentar “algo”. Sabia, – ah! como sabia -, que quando chegasse o momento ideal, logo estaria feito. Não existia algo ideal, mas ela conhecia seus limites, e sabia que estava anos-luz avançada dele. Era uma questão de tempo, não do gasto de suas lâminas.

Então, outra pausa. Dessa vez ela ria. Discutiam sobre cílios, e ela realmente duvidava de que havia alguém com cílios maiores do que o seu. Ainda rindo, o assunto já não era mais o mesmo. Talvez nenhuma das duas quisesse retomá-lo, embora ela soubesse que J. nem imaginava uma centelha do que aquilo tudo significava para ela, e tamanha dor com sofrimento que lhe dirijia.

Não obstante, sabia que não se esqueceria da forma que se sentiu, de como a depressão a puxou e a fez afundar, acreditando que ficaria de olhos fechados para sempre. Logo, podia apostar que conseguiria escrever especificamente sobre o acontecido quando a tortura não fosse como a que mal suportara agora mesmo. Nesse instante, ela não aguentava.

Não sabia se era uma vontade ou consequência, só trancafiaria o pensamento. Por hora.

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