Intransponível.

Ela construira uma barreira sem precedentes. Constantemente verificando suas estruturas, reafirmando conceitos com pontos em que se sustentariam as vigas, com os pilares e colunas que manteriam a imponente muralha divisora. Assegurou estar erguida, inabalável em seu cerne. Por maior que fossem as ocilações, por mais que surgissem portas com acesso ao interior da barreira, ainda seriam mantidas outras e estas encontrariam sucessoras e assim por diante.

Aconteceu que ela não soube mais administrar. Houve uma infinidade de outras portas, com divisões aleatórias, repartições independentes… Mantendo a barreira cada vez mais sólida. E irredutível. Ela tentara se livrar de amarras, se sentir menos presa, enfim se libertar.

A barreira não somente mantinha os outros distantes, mas a prendia de maneira que ela era a prisioneira dela mesma. Ela não podia, por mais que tentasse, entrar em contato com o exterior. Ela entrava em partes de seu corpo, vasculhava por chaves e aberturas de sua mente apenas para se deparar com outros (e maiores) muros.

Os medos se erguiam, afrontosos, em seu caminho. A desesperança difultava sua jornada para qualquer sentido, a distância a assegurava que estava absurdamente perdida. Seus olhos a traiam, sua personalidade a abandonava, sua vontade era sufocada e seus princípios invertidos com os valores que lhe pregavam.

Todos pareciam sabotá-la. Faziam com que se convencesse que não haveria um só individuo que lançaria seus vestígios, tentativas vãs de estar presente, em seu mundo cristalino e, ao mesmo tempo, turvo como águas densas demais para se diferirem de uma das noites mais escuras, sem uma só lua em seu céu.

Ela precisava alcançar, ela precisa se achar. Porque, mais do que qualquer outra coisa, sobretudo, ela precisa cessar com os infindáveis vestígios deixados por uma luz ofuscante, que inundara seu mundo e conseguira vislumbrar através das camadas invencíveis. Ela quer, com cada fibra de seu ser, compartilhar o mundo delas e deixar o seu. Ambas procuram por aberturas para se encontrarem, porém com tentativas falhas, e por mais próximas que estejam, as barreiras invisíveis as rodeam, com o aviso contínuo de que a aproximação precisa ser de forma branda, e intensa. Muito mais do que imagina possível.

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