Eu aprendi a te amar sem ser amável.

Eu aprendi a te amar sozinha, digo, a sós.

Assim, eu aprendi a te amar sem se relacionar em nada comigo.

Eu aprendi a te amar sem que sequer me tocasse, sem que comigo falasse, sem que aqui estivesse.

Eu aprendi a te amar por pura e simplesmente ser você.

Te amei no seu canto, com você reclusa, hesitante, rabugenta, reclamando, me evitando, me subordinando, me colocando para passear, me xingando e repreendendo.

Aprendi a te amar sem que você fosse amável.

Aprendi a amar cada parte sua sem nada mais ligado a isso, só pelo fato de ser seu e, por isso, eu querer.

Aprendi a te amar mesmo quando me deixava, me machucava e até humilhava.

Aprendi a te amar porque eu me colocava no seu lugar, e tentava enxergar pelos seus olhos e sentir como se fosse eu no seu organismo, como se estivesse em você a mesma toxina que hoje maltrata meu próprio corpo.

Aprendi a te amar sem que você desse motivo, fundamento, explicação, estrutura.

Aprendi a te amar por capricho, talvez, mas eu não me vi fazer essa escolha, eu não vi ensinamento algum, não houve sabedoria.

Eu aprendi a te amar de bobeira, como se fosse alguma besteira.

Mas te amei sozinha.

Eu amei quem você era, e quis que me amasse sim, mas o meu amor por você e a vontade de ser correspondido eram duas paralelas, por mais que andem lado a lado, elas não se encontram, sem nunca, jamais, uma influenciar na outra.

Então eu aprendi a te amar sem nunca me sentir amada.
E te amei a sós.

Te amei por ser quem era. Amei as botas, as camisas com os blazers, amei o cabelo que parecia escultura, amei a boca com os dentes pequenos, amei os olhos que ainda agora me descompassam, me aceleram o batimento e me deu esse frio na barriga com um vislumbre na memória deles, amei a voz que nunca outra fora tão sedutora, amei o sotaque único, amei a autoridade, as imposições, a determinação, amei a autosuficiência, amei o talento de persuasão, amei o charme que parecia algo cinematográfico de outra década, amei até o sobrinho capa de revista, amei o toque que se revelava ávido quando eu nem desconfiava do interesse, amei cada gemido que transbordava prazer com intensidade, amei as noites que simplesmente não dormíamos e nos entregávamos uma a outra como fogo e pólvora que se consumiam, amei o encaixe, amei as comidas, amei os planos, amei a foto da nossa casa em construção, amei segurar sua mão diante da família inteira, amei te dar o primeiro pedaço do bolo, amei achar que era cuidada, que me ensinava e que, embora minimamente, se importava se eu aparecesse morta ou quase. Amei seus ímpetos, sua rispidez, sua astúcia, seu domínio, sua manipulação, seus maus tratos, te amei em cada ato, cada átomo seu, em cada átimo de tempo. Amei seu mau humor, amei seu cansaço, seu desinteresse, sua ousadia, seu descuido, sua revolta, sua libertinagem, sua bebida excessiva. Amei você por ser você como quer que você fosse enquanto ainda continuava tão você.

Aprendi a te amar sem ter quisto, sem ter me dado conta, como se eu sempre soubesse que não era aprendizado, só aconteceu.

Aprendi a amar sua natureza, você que nunca foi crua, e  sendo natural que te amasse, te amei sem que fosse amável, mas nada em você me convenceu um dia do contrário.

E agora, de fato sozinha, não aprendo a não te amar.

Afinal, o que mudou? Nós iríamos nos casar, pois EU te amava, mas não por ser verdade ou não quando dizia que me amava.

Eu aprendi a te amar sozinha e sigo sozinha.

Como não amar, daí? Eu não vejo saída. Eu ainda sequer sei se seus defeitos são, por certo, defeitos se tenho amor por eles. Eu devia ter achado algum empecilho, talvez. Talvez eu não devia ter estado sozinha por tempo demais. A solidão seria tratada como visita ao invés dessa residente.

Eu senti amor por você, mas não de você.

(E, por eu amar você e não por você me amar ou não, disse “sim” quando perguntou se eu me casaria com você, e casaria. Até que você simplesmente desistiu, não quis, se foi e não voltou.)

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