Até parece que sei o título disso.

Eu fingi que o tempo não passou por tempo demais até que também perdi a noção do tempo.

Por mais que eu nunca tenha gostado de espelhos, eu nunca fiquei tanto tempo sem me encarar em um. Essa manhã quando distraidamente passei por meu reflexo, algo fez com que eu parasse. Aparentemente nada mudou, até eu persistir o olhar e constatar, enfim, que não havia mesmo nada ali. E soube que até disso eu havia me esquivado, de preencher o meu próprio corpo ou, mais correto dizer, de ser alguém substancial e verdadeiramente.

Por mais que a minha mente não tenha conhecido o silêncio, eu fingi que nada acontecia, nada havia acontecido e que não havia nada para fazer com que acontecesse. Fingi que os textos que se formavam constantemente em minha mente não eram nada além de falatório, ignorando ao máximo as percepções e o que apreendia logo tratava de descartar.

Desde que consigo me lembrar tive problemas com a realidade, de saber o que é real e o que não é, o que faz com que algo seja real? O que não é irreal? Por estar somente em minha mente não parece deixar de ser menos real. Ou, pior, o que é que está só na minha mente? Eu nunca soube essas respostas (e ainda não sei), nunca soube interpor essa barreira entre realidade e fantasia, como não serem a mesma coisa? Até que chegou o momento onde eu não sei mesmo onde é que me insiro. Em qual lado estou? Na realidade? Sou eu uma criação minha ou de alguém? O que é que eu crio ou só permaneço – mas nada permanece? O que tenho em mim de verdade quando o que mais encontro são ilusões? Falsas percepções da realidade caracterizam o erro, eu sou um erro, o que isso faz de mim? Irreal?! Pois bem, me perdi. Perdi a minha existência, se é que ela foi real um dia.
Anulei a minha existência como se pudesse me privar de lidar não só com o externo que não me convence, mas comigo mesma em concreto.

Declinei várias vezes de vir a enfrentar letras amontoadas que registrassem algo que só eu sei e que não sei dizer sobre, na verdade, não quero nem tentar colocar ordem.

Acontece, sim, que o tempo passa e está passando, e que ele não é remédio se eu não estiver ali para tomar a minha dose dele, não obstante ele passa até para mim. E eu ainda não sei o que fazer nem com ele, nem comigo.

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