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Eu estou só.

Não achei que daria certo, achei que seria normal, nada comigo é, porém.

Antes de sair para encontrar-me com meu amigo, troquei de roupas pelos menos três vezes e ainda saí insatisfeita – todas pareciam verduras, se pareciam com massa, jornal, retalhos, gordura, se pareciam com o que fosse, mas não comigo e não com vestimentas. Descartei a ideia de ser um mau presságio e atribui mais pontos para a minha indecisão.

Nos encontramos e talvez eu não deva reclamar de nada visto que apareci de surpresa. Fazia tempo que não nos víamos e ele é deveras querido para que eu não me esforçasse para sair em público e andar no sol com a zonzeira habitual ainda maior.

Acontece que eu não sei mais estar na companhia de alguém. Acontece que eu sou um saco, eu só falo merda e perdi o senso do que deve ou não ser feito, não sei ser menos assustadora, não sei ser comedida, não sei me expressar inteiramente – o que só deixa os outros mais confusos a medida que se convencem de eu não valer a pena, não valer porra nenhuma. Eu não faço sentido, mas me acompanharem deixou de fazer sentido também.

Não aturo mais a ideia de que carrego poucos e bons amigos, eles não devem confiar em mim ou pensar algo de bom a meu respeito, e o tormento disso me assola mas também me deixa mais anestesiada, mais desapegada e mais distante – como se me sentir literal e dolorosamente noutro mundo já não fosse tormento o bastante.

Acontece que eles não sabem disso, não me conhecem e por mais crua, sincera e fiel eu seja a eles, eles ainda só avistam uma ponta do iceberg – o que faz com que eu me sinta uma farsa -, porque eu estou recolhida em algum lugar de meu cerne, a grosso modo eu só estou mais calada, horrível de se ver e de se falar – um verdadeiro pé no saco que não sabe o que faz e nem o que diz.

Só não me aponta o dedo e não me julga, nem comente sobre, você não faz nem ideia do que estaria fazendo e dizendo sobre mim.

Lo.

Lo, como foi a praia? Será que estando lá, lembrou-se de quando estávamos juntas? E aquele sofá, teve alguém com você ou quis que estivesse sem ser eu? Tenho saudades de me ouvir dizer Lo, nos meus braços você sempre será Lo. E a faculdade, será que agora que tem alguém querido com você lá, você passou a gostar mais? Eu tenho gostado mais de sopa e cerveja, já gostava, mas agora tomo algumas porções e doses a mais, lembro de você e consigo sorrir sabendo que você gostaria de estar fazendo o mesmo – mas é claro que o faz, só não é comigo. Lo, você consegue se lembrar de quando me chamou de “mor”? Era tão normal, mas que agora já não fala mais. Lembro-me quando usou “minha modelo”, e eu sabia que não era modelo nenhuma, como agora sei que continuo sendo sua – embora o que eu tenha seja a rejeição bem explícita. Lo, vamos marcar um dia pra eu gemer e você dizer no dia seguinte que te deixei louca? Lo, e se você voltar pra minha vida? Eu já não quero mais insistir. Eu cansei de dar murro em ponta de faca e depois me perguntar porque está sangrando. Lo, eu acho que a sua amizade me faz mais falta do que você comigo, e eu já não quero repetir ainda mais isso. Lo, e sua saúde? E a natação, voltou? E o trabalho, ainda te estressa? Lo, as vezes minhas mãos só querem te massagear, não estar entre suas pernas ou nos seus seios. As vezes eu só quero te dar um beijo no rosto, não nos lábios ou no pescoço. Lo, as vezes eu só quero me aproximar, não me relacionar romântica e sexualmente. Não sente falta da minha sinceridade? Lo, eu acho que você sequer pensa em mim de verdade, e pra deixar mais claro: você não me conheceu. Lo, eu fiquei tão absorta em reparar cada coisa sua que não te mostrei as minhas. Eu me prendi em te desvendar, e com isso eu não me mostrei – por falta de um, somos dois mistérios. Eu tenho arrependimentos tão dolorosos que não me largam, queria ter cruzado menos os braços, me atirado mais e ter falado mais também, queria que me visse sem rodeios, sem hesitações e com menos receios. Lo, eu me entreguei sem você saber o que receberia. Lo, mais do que eu saber dos meus erros, eu sei que foram mais do que eu imagino. Lo, eu queria não ter te cobrado nada, nem inconscientemente, nem reciprocidade. Lo, vamos nos conhecer? Eu já não sou mais a mesma e talvez nem você seja. Mas Lo, sei que não me deseja, apenas seja não só a lembrança do perfume que ainda te traz pra perto e o par de olhos esverdeados que anseio. Lo, eu já nem sei o que te escrevo, de qualquer forma, sei que não leu mais nenhum pedaço de nenhum texto, não leu nem o meu pedido para que não se ausentasse em nossos beijos.

Amizade!

“Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências…

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.

Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer…

Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!”