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Família.

É realmente nauseante olhar para alguém que te provoca não apenas o nojo em si, mas te dá umas bordoadas com o desgosto e incessante incômodo com sua presença, suscita lamentações e se torna alguém digno de pena – e quem é digno de pena, não é digno de mais nada.

Como se o problema fosse apenas esse, o que revela-se como a ponta do iceberg, a questão está em: esse alguém são meus familiares mais próximos, pais e irmã.

O vínculo de sangue tornara-se tão vão que dispensa qualquer outro comentário.

Fui exaustivamente xingada, desmotivada, humilhada, surrada, mal entendida e sei lá mais o quê.

Segundo eles, eu sou:

Vaca, cobra, monstruosa, animal, retardada, louca, me faço de vítima, dissimulada, mentirosa, sínica, feia, gorda, sem noção, sem senso, errada, a desgraça de suas vidas, os amaldiçoei com meu nascimento, burra, incapaz, inútil, olhar minha cara é um tormento, não dou ouvidos pra ninguém – só quando me convém, venenosa, arisca, ignorante, arrogante, prepotente, desmerecedora, não presto, não valho a pena…

Tem mais, muito mais do mesmo, mais do que não só de uma vez lembro.

Se meus pais e irmã dizem isso, o que os outros esperariam de mim?

É melhor que seja nada, é melhor que não me esperem.

E se? E se nada.

E se eu chegar a ver suas fotos e não sentir essa bala que parece me atravessar o peito, se o ar não ficar ali contido, espremer as costelas e apertar o coração que parece se atrever a ir mais fundo onde se esconde e não mais o acho? E se eu parar de procurar por sua companhia quando não volta a fazê-la minha? E se eu realmente apagar os seus números que não quis decorar? E se nunca mais nos falarmos de fato? E se foi só ilusão e ficar por conta do acaso? E se agora que choro, com o rosto machucado, com sentimento trancado, eu deixe pra lá o que não me deixa? Eu só insisto em causa perdida. E se eu fosse mais bonita ou interessante? E se eu fosse quem você queria, você se renderia? E se eu deixasse de querer, você ligaria? E se eu não te procurasse mais, você notaria? E se eu continuar por outra dezena de meses com as mesmas lágrimas, você cederia? E se não fossem lágrimas, se eu te cobrisse de alegria, você deixaria? E se eu ousasse te alcançar, você se entregaria? E se eu te perseguisse para te mostrar como posso amar, você não aguentaria? E se eu quisesse experimentar como é nem mais em ti pensar, como eu faria? Eu não sei lidar comigo sem me ligar a você, eu fico aos soluços e sem jeito, fico sem fim e perdida nos meios, onde está quem esteve comigo no nosso começo? Porque se escreveu se não deu continuidade em mim? Porque se insinuou a sabe-se-lá-o-quê e não ficou para eu saber como poderia ser? Por que eu não sei lembrar de te esquecer? Porque eu me perco sem me achar, sem te ver, sem te encontrar e sem você se importar. Eu me tornei a absurda que escreve para um zé ninguém, mas que para mim tem olhos esverdeados que gritam em silêncio, que tem um corpo curvilíneo ocupando o espaço da cama que eu durmo sozinha, que tem cabelos longos e escuros que mais parecem um ímã ao meu afago. Eu não sei mais onde colocar tanta  dor, não me importo mais com a escrita perdida, a coesão fora esquecida, por que pensar em você ainda me traz as melhores lembranças mas é a memória mais difícil de se carregar sem que eu me entregue em lamúria recebendo só a carcaça do meu corpo em troca. Eu estou tão entregue sem ter onde que chega a parecer insanidade, impulsividade ou fantasia, a pira de ter caído numa mão única. Eu estou esperando por algo que não vai acontecer. Você tem outro alguém, você continuou a viver de forma que eu chego a duvidar se lembra do meu nome. É como se eu tivesse entrado numa outra dimensão, e então o mundo girou e me deixou aqui.