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Não sei esclarecer.

Músicas as vezes parecem berrar, barulhentas demais até que no instrumental. Os filmes, agressivos, cheios de mensagens subliminares ou escancarando o que não é do meu interesse. As fotos ainda variam demasiado. Por mais que eu tenha músicas para escutar, livros para ler, filmes para assistir e fotos para ver, eu fico deitada, sentada, fico em outro lugar, noutra dimensão, num lugar paralelo ou sei lá, eu só me “desligo” sem saber o que estou fazendo e onde estou, até que tenha se passado um intervalo de tempo qualquer e eu não me recorde nem de poucos segundos atrás.

Eu estou uma bagunça e não me acho nem se virar do avesso, abrir e sacudir meu conteúdo.

Parece que vou me debulhar em lágrimas, chorar até não haver mais oxigênio, que vou secar e me desfazer, mas essa sensação se limita ao meu interior, então é como se eu estivesse aos prantos de bochechas secas mas olhos não menos ardidos e cansados.

A ansiedade me consome, fico agitada mesmo quando inerte. 

De muitas maneiras é como se meu organismo fosse composto de algo corrosivo e eu estivesse apodrecendo, adoecendo, me ferindo, me dissolvendo e me tornando o que não sei nomear. 

Quimera eu soubesse me pontuar, sei da agonia sem pausa, clamando por atenção a cada entranha a mais que revira. 

Eu estou cada vez mais congelante, também, as mãos geladas já são algo além disso.

Eu precisaria estar mais em ordem, com alguma linha de raciocínio ou pensamento ordenado para continuar, mas não consigo.

(Tem uma coceira aqui dentro, ao mesmo tempo que parece ter agulhas em minha corrente sanguínea e garras que me dilaceram de dentro para fora, ainda sinto um impulso de fazer o que eu nunca sei bem o quê, mas que acabo fazendo da pior forma.)

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Sozinha, sozinha, sozinha.

Não.

Minha mente turbulenta, barulhenta, movimentada, pesada, gritante, nauseante, incompreensível e irreprimível.

Há vozes nela, fora dela, vozes em mim, vozes comigo, vozes que as vezes sei de onde são, as vezes não.

Se minha mente diz que há alguém no quarto sem que eu perceba, eu não sei dizer se há ou não – em quem acredito? Em mim? Nela? Não sei de nenhuma, não confio em nenhuma.

Tenho convivido com gente que não acredito que seja vivo. Tenho convivido com vivos que não me deixam querer ser um ser vivo. Tenho convivido com uma solidão mesmo se não estou só, com gritos sem o movimento dos lábios. Passo frio debaixo do sol mais caloroso, a água escaldante do chuveiro ainda arrepia meu corpo como se fosse congelante. O meu organismo, o meu corpo, eu – nada parece estar como deveria. (E como seria isso?)

Minha percepção equivocada adquiriu todos os traços da realidade, mas não sei qual é a realidade assim como vejo perceber estranhamente o meu redor – percebo o que não percebem, não percebo como percebem. Encaro alguém querendo saber se esse alguém está mesmo ali, não chego a conclusão nenhuma.

Confiança virou utopia.

Convença-me!

É muito fácil se perder em universos paralelos, são tantos!

Até o ar parece estar mais resistente, se opondo a entrar em meus pulmões e me deixando com a respiração falhada.

O pulso ainda pulsa, preguiçoso, numa lentidão que transparece o cansaço, sem motivação e sem credibilidade. 

Os olhos não piscam normalmente, esgazeados, levando não poucos minutos para perceber que não vejo nada do que encaram.

A zonzeira não é só mental, a labirintite eleva o grau das coisas parecerem girar, girar e girar mas só. Até eu cair como ontem.

O céu parece só um véu que cobre as coisas, abafa o cenário e não nos deixa escapar para o que tem depois dele.

A mudança de lugares parece troca de cenários, imposta numa tentativa fajuta de distração.

Os edifícios, as estruturas, até móveis e eletrônicos, parecem que sem demora vão se dissolver – mas demora, só que a ansiedade me dá o feedback de que continuo na espera.

Fico atenta ao vento, as vezes acho que com ele as coisas vão quadricular, dar aquela pausa ou só travar como numa transmissão via satélite que perde o sinal, um problema de conexão ou coisa assim.

Ser uma pessoa tem se tornado demasiado complicado, perdi o senso do certo e do errado, já não sei mais o que é convencional e o que não é, a normalidade não faz sentido ou eu que não sei senti-la, estar acordado em muito se parece com estar dormindo, a ilusão pode ser real, a existência não me convence de sua verossimilhança.

Encaro o espelho, vejo um borrão esfumaçado, um vidro, uma massa de pão – vejo o que for, nada vejo.

As vozes dos que estão próximos a mim não são apreendidas, levo tempo demais para perceber que tenho de responder e formar uma resposta, ou só o faço sem saber que o fiz – depois me questiono: “O que eu disse? Disse? Ou só pensei em dizer?”

Não é bem como estar no piloto automático, é mais como não saber onde se está e o que é que seria. Eu não faço ideia do que está acontecendo porque, na verdade, eu não acredito que esteja acontecendo de fato.

Eu não me vejo aqui. 

Queria parar com isso de vez, mas parar com o quê? É necessário que se tenha uma vida para tirá-la, eu não acredito que esteja viva. Mesmo.

Família.

É realmente nauseante olhar para alguém que te provoca não apenas o nojo em si, mas te dá umas bordoadas com o desgosto e incessante incômodo com sua presença, suscita lamentações e se torna alguém digno de pena – e quem é digno de pena, não é digno de mais nada.

Como se o problema fosse apenas esse, o que revela-se como a ponta do iceberg, a questão está em: esse alguém são meus familiares mais próximos, pais e irmã.

O vínculo de sangue tornara-se tão vão que dispensa qualquer outro comentário.

Fui exaustivamente xingada, desmotivada, humilhada, surrada, mal entendida e sei lá mais o quê.

Segundo eles, eu sou:

Vaca, cobra, monstruosa, animal, retardada, louca, me faço de vítima, dissimulada, mentirosa, sínica, feia, gorda, sem noção, sem senso, errada, a desgraça de suas vidas, os amaldiçoei com meu nascimento, burra, incapaz, inútil, olhar minha cara é um tormento, não dou ouvidos pra ninguém – só quando me convém, venenosa, arisca, ignorante, arrogante, prepotente, desmerecedora, não presto, não valho a pena…

Tem mais, muito mais do mesmo, mais do que não só de uma vez lembro.

Se meus pais e irmã dizem isso, o que os outros esperariam de mim?

É melhor que seja nada, é melhor que não me esperem.

Lo.

Lo, como foi a praia? Será que estando lá, lembrou-se de quando estávamos juntas? E aquele sofá, teve alguém com você ou quis que estivesse sem ser eu? Tenho saudades de me ouvir dizer Lo, nos meus braços você sempre será Lo. E a faculdade, será que agora que tem alguém querido com você lá, você passou a gostar mais? Eu tenho gostado mais de sopa e cerveja, já gostava, mas agora tomo algumas porções e doses a mais, lembro de você e consigo sorrir sabendo que você gostaria de estar fazendo o mesmo – mas é claro que o faz, só não é comigo. Lo, você consegue se lembrar de quando me chamou de “mor”? Era tão normal, mas que agora já não fala mais. Lembro-me quando usou “minha modelo”, e eu sabia que não era modelo nenhuma, como agora sei que continuo sendo sua – embora o que eu tenha seja a rejeição bem explícita. Lo, vamos marcar um dia pra eu gemer e você dizer no dia seguinte que te deixei louca? Lo, e se você voltar pra minha vida? Eu já não quero mais insistir. Eu cansei de dar murro em ponta de faca e depois me perguntar porque está sangrando. Lo, eu acho que a sua amizade me faz mais falta do que você comigo, e eu já não quero repetir ainda mais isso. Lo, e sua saúde? E a natação, voltou? E o trabalho, ainda te estressa? Lo, as vezes minhas mãos só querem te massagear, não estar entre suas pernas ou nos seus seios. As vezes eu só quero te dar um beijo no rosto, não nos lábios ou no pescoço. Lo, as vezes eu só quero me aproximar, não me relacionar romântica e sexualmente. Não sente falta da minha sinceridade? Lo, eu acho que você sequer pensa em mim de verdade, e pra deixar mais claro: você não me conheceu. Lo, eu fiquei tão absorta em reparar cada coisa sua que não te mostrei as minhas. Eu me prendi em te desvendar, e com isso eu não me mostrei – por falta de um, somos dois mistérios. Eu tenho arrependimentos tão dolorosos que não me largam, queria ter cruzado menos os braços, me atirado mais e ter falado mais também, queria que me visse sem rodeios, sem hesitações e com menos receios. Lo, eu me entreguei sem você saber o que receberia. Lo, mais do que eu saber dos meus erros, eu sei que foram mais do que eu imagino. Lo, eu queria não ter te cobrado nada, nem inconscientemente, nem reciprocidade. Lo, vamos nos conhecer? Eu já não sou mais a mesma e talvez nem você seja. Mas Lo, sei que não me deseja, apenas seja não só a lembrança do perfume que ainda te traz pra perto e o par de olhos esverdeados que anseio. Lo, eu já nem sei o que te escrevo, de qualquer forma, sei que não leu mais nenhum pedaço de nenhum texto, não leu nem o meu pedido para que não se ausentasse em nossos beijos.

E se? E se nada.

E se eu chegar a ver suas fotos e não sentir essa bala que parece me atravessar o peito, se o ar não ficar ali contido, espremer as costelas e apertar o coração que parece se atrever a ir mais fundo onde se esconde e não mais o acho? E se eu parar de procurar por sua companhia quando não volta a fazê-la minha? E se eu realmente apagar os seus números que não quis decorar? E se nunca mais nos falarmos de fato? E se foi só ilusão e ficar por conta do acaso? E se agora que choro, com o rosto machucado, com sentimento trancado, eu deixe pra lá o que não me deixa? Eu só insisto em causa perdida. E se eu fosse mais bonita ou interessante? E se eu fosse quem você queria, você se renderia? E se eu deixasse de querer, você ligaria? E se eu não te procurasse mais, você notaria? E se eu continuar por outra dezena de meses com as mesmas lágrimas, você cederia? E se não fossem lágrimas, se eu te cobrisse de alegria, você deixaria? E se eu ousasse te alcançar, você se entregaria? E se eu te perseguisse para te mostrar como posso amar, você não aguentaria? E se eu quisesse experimentar como é nem mais em ti pensar, como eu faria? Eu não sei lidar comigo sem me ligar a você, eu fico aos soluços e sem jeito, fico sem fim e perdida nos meios, onde está quem esteve comigo no nosso começo? Porque se escreveu se não deu continuidade em mim? Porque se insinuou a sabe-se-lá-o-quê e não ficou para eu saber como poderia ser? Por que eu não sei lembrar de te esquecer? Porque eu me perco sem me achar, sem te ver, sem te encontrar e sem você se importar. Eu me tornei a absurda que escreve para um zé ninguém, mas que para mim tem olhos esverdeados que gritam em silêncio, que tem um corpo curvilíneo ocupando o espaço da cama que eu durmo sozinha, que tem cabelos longos e escuros que mais parecem um ímã ao meu afago. Eu não sei mais onde colocar tanta  dor, não me importo mais com a escrita perdida, a coesão fora esquecida, por que pensar em você ainda me traz as melhores lembranças mas é a memória mais difícil de se carregar sem que eu me entregue em lamúria recebendo só a carcaça do meu corpo em troca. Eu estou tão entregue sem ter onde que chega a parecer insanidade, impulsividade ou fantasia, a pira de ter caído numa mão única. Eu estou esperando por algo que não vai acontecer. Você tem outro alguém, você continuou a viver de forma que eu chego a duvidar se lembra do meu nome. É como se eu tivesse entrado numa outra dimensão, e então o mundo girou e me deixou aqui.