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Sotaque Britânico.

Eles conversaram boa parte da noite do dia anterior e mantiveram o ritmo madrugada dentro. Ela fitava seus olhos, ainda espantada por como o reflexo dos dele pareciam transmitir o fascínio que ele não hesitava em demonstrar. Ele a encarava por alguns segundos, protelava por minutos e então ria, ela aprendera a não se incomodar com o gesto, uma vez que o encanto parecia permanecer ali. Conversaram sobre sua música, a paixão que o invadia com os sons, lugares que gostariam de conhecer e experiências passadas.

E por mais que ela deixava escapar sobre quem era, sem titubear ele disparava sobre o mistério que a envolvia. Ela havia garantido a ele que encontraria outra melhor do que ele imaginava que ela fosse, e ele exibia uma segurança de arrepiar negando. Simplesmente, ele dizia, ela não podia imaginar quão difícil era encontrar alguém com uma beleza como a dela, nunca antes vista, mas ainda honesta, vergonhosamente incapaz de mentir, inteligente e interessante, mas humilde. Seus pulmões a deixaram, falhando sua respiração e sua risada era nervosa. Então desfrutaram de um silêncio que deixava a ambos confortáveis.

Seu maço estava quase terminado, e o dele não estava diferente. Embora a zonzeira habitual os envolvesse, ela não deixou de sentar – sem apoio algum – na mureta que só estava separada da sarjeta por vários metros de altura. Não havia ninguém além dos dois ali, produto do amanhecer quase iminente. Ele estava ao seu lado, sem sucesso na sua tentativa de parecer despreocupado e confiante no lugar que haviam se enfiado. Ela, no entanto, se sentia livre ali. Estavam alto o bastante para ver as estrelas com a lua sem a interrupção das construções urbanas.

Depois de se perder por vários minutos no céu noturno, quase não havia percebido que passaram tempo demais no silêncio. Sem aviso, ele saltou. Ela não se mexeu, sem saber quais seriam seus movimentos seguintes. Porém, surpreendentemente, ele apenas a beijou na bochecha, demoradamente, e disse que havia sido um real prazer conhecê-la. Ainda sem responder, ela buscava por alguma reação em gratidão a sua companhia, pelo menos. Contudo, permaneceu imóvel.

Seu corpo não respondia ao turbilhão que sua mente trabalhava, bruscamente tomada pelo turpor, ela fez o mais absoluto nada. Ainda sem saber se por medo de encarar o espaço vazio que estava, ou de encontrá-lo ali, e então ceder. Ambas situações que exigiam uma confiança que não armanezanara. Aliás, ela ainda estava, literalmente, nas alturas. Fosse um pensamento leviano ou qualquer outro, apenas um impulso, e uma inclinação a deixaria verdadeiramente morta em segundos.

Num desespero mudo, com seus movimentos irritantemente demorados, ela se virou enquanto o espaço vazio se revelava intragável. Ele se fora.