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Calafrios.

Sentia um frio que em nada tinha a ver com a estação em que estavamos. Suas mãos congelavam, o que era comum mesmo sob um sol caloroso. Contudo, ainda era diferente ao ver seus membros endurecerem, a medida que se embolava neles, espremendo sua pelúcia que mantivera o tempo inteiro presa entre seu tórax e seus joelhos, pressionando-a contra o peito que era assaltado pelo vazio e pela dor lancinante.

Ela tinha suas crenças nada críveis, com ideias assombrosas, num destino fadado a desesperança e danação de sua alma corrompida. Era condenada a abrir os olhos através de noites regadas pela insônia, tendo seu organismo maltratado pela falta de químicas que ela ouvira falar apenas em sua única consulta médica. Não se tratava mais de frustrações adolescentes, de desilusões amorosas, de estar depressiva e ser consumida pela obsessão ao suicídio.

Ela estava exposta. Podia andar entre mundos, fazer contato com aqueles que foram dados como ausentes, ela não se encontrava na mesma dimensão daqueles que a rodeavam. E ela não se importava com a lágrima que deveria estar rolando sua face mas assim como ela, não estava onde deveria estar.

Em dias como esse, onde não houve nenhum resquício de luz ou uma centelha de claridade, onde apenas encontrou-se com o borrão de seu reflexo, escurecido e banhado pelo desespero, sem chances de encontrar a si mesma, ela sabia que não haveria mudança alguma se fosse atirada do andar mais alto, deitasse com o gás aberto, cortasse seus pulsos até seu corpo secar ou seja lá o que lhe aguardasse para completar a travessia.

Ela sabia que há muito não estava mais viva, e a morte era encantadoramente bem-vinda, assim como o suicídio lhe soava como terapia. Em sua centelha de energia, alucinava com a realidade que aquelas doces águas negras lhe ofereciam, quando envolviam seu corpo feito seda sob sua pele, arrancando-lhe do mundo em que penava. Ainda paralizada, tentou debalde fabricar um sorriso. Seus joelhos enfim cederam.

“Is like the finish line when everything just ends.”

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Malograr-se.

Eu não sabia o que estava acontecendo, tampouco sabia como essa situação mudaria – se é que fosse possível – e eu enfim descobriria o que diabos havia de errado comigo. Meus acessos estavam cada vez mais intensos, desproporcionais e irracionais. Por que eu continuava fazendo aquilo? Aquelas ações não pareciam minhas. Eu gritava por coisas que sequer me eram relevantes. Meus atos se baseavam em impulsos, meus pensamentos todos incoerentes e encobertos, perdidos de qualquer foco.

Contudo, sempre a sensação que eu tinha era de me restarem apenas alguns minutos – fossem de lucidez ou insanidade – até que tudo se renovasse outra vez, voltando a uma rotina que me era usualmente desconhecida. A natureza daquilo me perturbava de formas que eu jamais imaginara.

Podia me dar ao deleite de habitar cantos de meu intelecto onde a situação era bem-vinda, onde eu podia falsear a satisfação de ser tão perturbadoramente oscilante. A fugacidade das coisas, o desconcerto do mundo e o princípio da efemeridade sempre esteve presente para mim, mas as coisas mudavam quando seu organismo inteiro precisava lidar com isso. Quando seu corpo era movido por tais coisas e desprovido de controle.

Não importava quão intenso fosse, duraria cedo ou tarde demais, mas sempre o suficiente para que eu acreditasse na impossibilidade de ser aniquilado… Fixo. Eu não sabia se algum dia eu me acostumaria àquilo. Parecia demais para absorver. Eu poderia simplesmente me permitir o benefício da dúvida, com um voto a mais na questão de poder.

Se nada seria o bastante para conquistar sua permanência, eu também sabia que por mais perto que eu estivesse do limite de um extremo, como se fosse produto da metafísica, eu seria arremessada ao outro, pois.

A Teoria do Caos também ampliara seus sentidos. O bater das asas de borboletas, causadores de tufões no outro lado do planeta… É como se existisse um mundo inteiro em meu interior, suscetível a todo e qualquer – mínimo ou não – movimento que lhe fosse referente. E eu não fazia ideia de como administrar isso. Afinal, o psiquiatra nunca estivera tão correto ao descrever aos meus pais, o tsunami que se revolvia no meu cérebro danificado.

Extremos Adjacentes.

As coisas saiam cada vez mais do controle. As sensações, as palavras, os atos com as expressões… Todas eram expelidas do meu corpo de maneira que eu não mais as comandava. Eu sequer as reconhecia. Era como se nao fosse eu. Ainda assim, parecia além nao só do meu compreendimento mas também – principalmente – do meu alcance. É como se uma parte de mim intra ou extra corporal, nao fosse minha de fato.

Nao se tratava mais de como escapar dos demonios em minha mente. Era como passar cada arrastar dos ponteiros do relógio num campo de batalha, andando sobre ovos como num maldito campo minado. As pessoas começaram a falar coisas abominaveis sobre mim, as quais eu repudio e que as tenho permanentemente descartadas de minhas ações. Mas elas continuam a acontecer, como se aproveitassem alguns dos meus momentos de descuido e me colocassem para dormir enquanto acordam o meu corpo e brincam juntos num ensaio de marionetes.

O resultado é um desequilibrio tão terrível e absurdo quanto a experiência de perder seus sentidos, seus membros e o que mais lhe pertencer. Ainda assim, não há comparações com sentir impulsos como uma compulsão até mesmo física, acessos de raiva desproporcionais e inconvenientes, assim como o descontrole de outras sensações e vontades, e ainda – como se pudesse faltar – oscilações de humor que vão além da minha montanha russa pessoal de emoções, deixando-me a beira de um colapso, uma vez que o suicidio já fora dado como terapeutico, e em intervalos irregulares além de indefinidos, prostram-me de joelhos, mas logo estou pulando, jubilosa e orgulhosamente em êxtase.

Loucura? Pergunte às sombras que se arrastam ao meu redor, obliterando todo o restante. Talvez os individuos de tocaia nas portas (assim como aqueles que a qualquer momento, em qualquer lugar, também não deixam de me observar e às vezes até mesmo sussurraram coisas diferentes dos ruidos ininteligiveis habituais) possam esclarecer essa insanidade avassaladora.

De qualquer forma, eu queria que alguém me entendesse, soubesse identificar ou como agir. O conhecimento que peço é incomum, porem é o único capaz de viabilizar meu futuro – que há muito deixou de ser previsto ou existente.

O que não deve ser considerado como algum presságio, nao há saídas além da morte: Apenas ela me oferece mudanças que eu mesma posso fazê-las, será o meu único e último ato pela conquista de meu livre-arbítrio.

Sem mais responsáveis, espero ser tomada somente pela dose mais revigorante possível de morbidez. Anseio pela vastidão imensurável e íntegra do vácuo. Desesperadamente, entrego-me em rendição ao “nada” cobiçado, que apenas será existente no momento em que minha existencia for igualmente nula.

(in)Certezas.

Àquele ponto, eu definitivamente não sabia o que estava prestes a acontecer. Eu não sabia. Por mais que as imagens estivessem rodando nitidamente em minha mente, as outras coisas ainda atingiam dimensões desconhecidas. O medo não partia do ato que era mostrado nelas, era, na verdade, mais assustador a casualidade com que eu tratava o suicídio em si. Eu o desejava, algo que há muito deixara de ser secreto. No entanto, nenhuma atitude fora tomada de fato. Talvez seja por conta de minhas oscilações, ou porque não acreditavam em eu ser mesmo capaz de concretizá-lo. Contudo, o erro estava exatamente ali. Eu estava plenamente ciente de que era capaz. Eu não podia jogar todas as minhas incertezas pela janela, mas a afirmação era falsa quando se tratava de outra coisa a atravessando.