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Tulipas (vermelhas).

Não sabia se o silêncio, o estranhamento com o tempo, os devaneios e distrações constantes ou o que diabos tudo aquilo representava – se é que havia algum significado ou algo a ser dito. Mas ela reconhecia o sentimento. Sentia com cada centímetro do canto que começara a protestar conforme foi se expandindo, sendo esticado em diferentes direções ganhando cada vez mais terreno. Ela estava perdida. Não sabia mais o que identificar, o que inventar, ao que protestar, o que fazer ou falar. Ela perdera as noções de tempo, certo ou errado. Ela podia deitar durante dias e imaginar terem se passado alguns minutos/segundos/horas. Quem se importa.

É o que acontece quando o acúmulo de tempo não se diferencia de qualquer outro amontoado de coisas pequenas ou grandes, que se projetam de maneira regular, ou é como você pensa, para depois se revelar assombrosamente imenso com um piscar de olhos. Os olhos dela piscavam num intervalo de mês, quem sabe. Queria agarrar a chance de se alçar naquele cenário onde seus olhos podiam se dar ao deleite de presenciar o teatro particular pelo qual era grata ainda ter acesso, mas parecia que também perdia os horários e seu bilhete premiado perdera a validade.

Sabia que poderia ser valioso, e com certo pesar admitia estar mesmo desperdiçando uma boa quantia de coisas, mas quem é que estava contando? Em alguma parte sabia que a torneira pingando era um lembrete que forçosamente a impedia de abraçar o torpor que estendia gentilmente seus braços para içá-la por mais alguns anos. Contudo, não podia ignorar tal lembrete. A lembrança era a dela. Os sorrisos, as palavras, os flashes. Sua arte. As imagens eram avermelhadas, regadas de algo puro e luminoso. O que, de muitas maneiras, sobrevivera ainda mais forte e determinado a permanecer do que estivera no princípio. Numa espécie de arranjo, singularmente similar com o seu correspondente ao que sabia ser eterno.

E isso bastava, ela não sabia se havia mais para mantê-la, mas sabia do que precisava ser mantido. E as duas com toda a certeza preenchiam honrosamente a categoria.

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201…(?)

“O tempo passa… Mesmo quando isso parece impossível. Mesmo quando cada batida do ponteiro dos segundos dói como o sangue pulsando sob um hematoma. Passa do modo inconstante, com guinadas estranhas e calmarias arrastadas, mas passa. Até para mim.”

Começo do ano com gosto de… Nada. Nada que eu possa definir. Não há um começo de algo novo aqui, não quando continuo presa. Presa em, especificamente, abril do ano passado (mas não apenas). Presa a pessoas, acontecimentos e também a falta de ambos. O tempo está avançando e me levando outras coisas, porque não recuperei as poucas que outrora tive. Ele avança enquanto eu permaneço estagnada, o que é devastador. Não reconheço esse tempo, não me insiro nele, apenas me perco. Tenho medo de tudo, e de todos, o tempo inteiro. E eu, definitivamente, não estou pronta em tempo nenhum e para nada. Só. Sem outros rodeios.